sexta-feira, 20 de agosto de 2010

D'Alessandro e os brazucas

Brasileiros não gostam muito de acompanhar futebol internacional. Um pouco pela velha arrogancia de acharmos que só nós sabemos jogar futebol, um pouco por termos uma cultura futebolística que privilegia demais a paixão por um clube (conheço gente que sabe absolutamente tudo sobre o seu clube e absolutamente nada sobre todos os outros). Com o êxodo de brasileiros isso não mudou muito, as pessoas, inclusive grande parte da mídia, dá uma olhada nos jogos que têm jogadores brasileiros famosos e pronto. Assistir copa do mundo é uma tortura nesse sentido: a gente é obrigado a ouvir, tanto nas ruas como na mídia, comentários absurdos de pessoas que não tem o mais vago conhecimento do futebol mundial.
Na América Latina então, nem se fala. Os canais a cabo passam até campeonato turco, mas não há meios de ver um joguinho de campeonatos latino-americanos (agora o Esporte Interativo começa a passar o campeonato argentino, espero que seja uma mudança de mentalidade). O resultado é que em qualquer país da América Latina os fãs de futebol sabem o que se passa no resto do continente, menos aqui. Meus amigos argentinos, uruguaios, mexicanos, salvadorenhos, sabem perfeitamente quais são os clubes dos outros países (inclusive o Brasil), e os jogadores principais de cada um. Mas encontre um brazuca qualquer que saiba o nome de um jogador do River Plate, ou do técnico de qualquer time argentino, ou quem é o atual campeão uruguaio.
Uma consequencia particularmente bizarra disso é a supervalorização dos jogadores argentinos que jogam por aqui. Todos eles, na opinião de muitos brasileiros, poderiam disputar vagas na seleção de seu país. Cansei de ouvir gente pedindo Conca na seleção argentina. Tenho um amigo aqui em Recife que acha que Guiñazu deveria ser titular absoluto da seleção argentina. Não se dão conta de que Brasil e Argentina estão no mesmo nível, e portanto não tem força para tirar do outro seus melhores jogadores. Os argentinos que vêm para cá são os que não tem mercado do lado de lá (Conca veio do futebol chileno, e Guinazu do paraguaio). Basta notar quais foram os últimos brasileiros a jogar no Boca Juniors: Luis Alberto, Jorginho Paulista, Baiano e Iarley. O que pensaríamos se a imensa torcida xeneize pedisse um deles na nossa seleção? É o que eles pensam quando sabem que brasileiros pedem Conca ou Guinazu na seleção deles. A maioria nem lembra mais deles. Nunca foram destaque por lá.
Mas a hora da vingança chegou: D'Alessandro entrou na lista de Sérgio Batista para o amistoso contra a Espanha. A mídia e torcida acharam o maior disparate possível, até por ele ter entrado no lugar do talentosíssimo Pastore. Mas não importa. Lá vamos nós, os brazucas, ignorar fatos óbvios sobre os países vizinhos e achar que a nata da América Latina está por aqui.

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